O CASO DE ANA: UMA VISÃO INTEGRADA DO SOFRIMENTO NA ADOLESCÊNCIA
No caso que faremos a análise, Ana é uma adolescente de 16 anos, que está passando por uma mudança de escolar, a dificuldade de estabelecer novos vínculos, o medo intenso de ser julgada, juntamente com as manifestações físicas da ansiedade. Nesse sentido, é perceptível que seu sofrimento não pode ser compreendido apenas pela presença de sintomas de ansiedade. Dessa forma, será feito uma análise integrada entre o Desenvolvimento Humano, da Neurobiologia das Emoções, da Psicopatologia e da Análise do Comportamento. Por meio da integração dessas matérias será possível compreender porque esses comportamentos surgiram, quais os fatores contribuem para a sua manutenção e quais as estratégias podem favorecer sua recuperação e autonomia.
1. Análise do Desenvolvimento e Contexto Biopsicossocial
Aos 16 anos, Ana está na adolescência, uma etapa do desenvolvimento marcado por importantes transformações físicas, cognitivas e psicossociais. Papalia e Martorell (2022) destacam que, nesse período, questões relacionadas à identidade, autonomia, aceitação social e aos relacionamentos com os pares assumem grande importância.
No caso de Ana, essas mudanças podem ser observadas com maior clareza quando ocorre a mudança de escola. A adolescente não está apenas diante de um novo ambiente acadêmico, mas também diante da necessidade de reconstruir sua rede de relações. Por exemplo, situações que anteriormente poderiam ser consideradas comuns, como conversar com os colegas, participar de atividades em grupo ou realizar uma apresentação diante de uma turma a qual já estava famialirizada, passam a ser percebidas por Ana como situações de ameaça e julgamento.
- Mudanças cognitivas e psicossociais
Durante a adolescência, acontece um avanço na capacidade de pensar de maneira abstrata e considerar diferentes possibilidades e perspectivas. Essa ampliação cognitiva pode contribuir para uma compreensão mais complexa das relações sociais, mas também pode trazer uma preocupação excessiva com a maneira como o sujeito é percebido pelos outros. Com a Ana pode ser exemplificado pelo pensamento recorrente de que “todo mundo está me julgando”. A adolescente passa a antecipar avaliações negativas mesmo antes de determinada situação acontecer. Assim, uma apresentação em sala, por exemplo, deixe de ser apenas uma atividade acadêmicas e passa a ser interpretada como uma oportunidade de fracasso, exposição ou rejeição.
Essa interpretação pode produzir um ciclo: Ana imagina que será julgada, sente ansiedade diante da possibilidade de exposição, apresenta sintomas físicos, como taquicardia e sudorese, e evita posteriormente a situação. Sendo assim, um fator comum do desenvolvimento na adolescência é associado à sua vulnerabilidade individual e às mudanças em seu ambiente, já que a transferência de escola é um fator estressante. Ao perder parte da sua rede de apoio, seus antigos colegas, Ana precisou desenvolver habilidades para estabelecer vínculos em momento no qual a aceitação pelos pares (pessoas da mesma idade) possui grande relevância.
- Fatores de risco biológicos
Para Ana, isso não significa que ela não possa racionalizar suas emoções, mas sim que a regulação emocional ainda está em desenvolvimento. Assim, diante de uma situação interpretada como ameaçadora, como falar diante dos colegas, uma resposta emocional intensa pode ocorrer antes que ela consiga utilizar alguma estratégia cognitiva para avaliar a situação de maneira mais equilibrada. Um dado que deve ser considerado é que Ana apresenta um histórico de ansiedade desde a infância. Assim, a mudança de escola não criou necessariamente uma dificuldade emocional, mas pode ter funcionado como um fator desencadeador ou intensificador de uma condição preexistente.
- Fatores sociais
Portanto, são vistos os diferentes componentes de um molde biopsicossocial: a vulnerabilidade relacionada à ansiedade, características próprias do desenvolvimento e um contexto social marcado por uma importante mudança ambiental.
2. Neurobiologia das Emoções e Regulação Emocional
Nesse processo, a amígdala possui papel importante na identificação e processamento de estímulos. Para Ana, situações relacionadas à avaliação social podem adquirir um significado de ameaça. Dessa maneira, uma apresentação escolar, que possui como objetivo representar apenas uma atividade acadêmica, pode ser processada como uma situação de perigo.
A resposta emocional também envolve a participação do córtex pré-frontal, relacionado às funções executivas e à regulação de respostas emocionais. Em uma situação de ansiedade intensa, Ana pode apresentar dificuldade para utilizar estratégias cognitivas que permitam avaliar a situação de forma mais realista. Mesmo sabendo racionalmente que a apresentação não representa um perigo físico, a intensidade da resposta emocional pode fazer com que ela se comporte como se estivesse diante de uma ameaça real. Assim, a ativação emocional pode dificultar a utilização de recursos cognitivos de enfrentamento.
Outro aspecto importante é a relação entre estresse e funcionamento fisiológico. A ativação prolongada dos sistemas relacionados à resposta ao estresse pode contribuir para a manutenção de um estado de alerta. Para Ana, isso pode estar relacionado à dificuldade para iniciar o sono. Mesmo quando não está mais na escola, sua preocupação com as situações sociais permanece, dificultando o relaxamento e o início do sono.
Assim, é possível interpretar os sintomas de Ana como resultado de uma interação entre pensamentos, emoções, respostas fisiológicas e comportamento, e não como expressões autônomas.
3. Psicopatologia e Hipóteses Diagnósticas
A partir dos elementos apresentados no caso, a principal hipótese diagnóstica é o Transtorno de Ansiedade Social, também denominado Fobia Social (Dalgalarrondo, 2019). A hipótese é sustentada pela presença de medo intenso diante de situações sociais e de desempenho, preocupação com avaliação negativa, sintomas físicos de ansiedade e comportamentos de esquiva. Usando como exemplo a situacao escolar de Ana, ela nao demonstra desconfroto somente diante de apresentacoes ou interacoes com os colegas, mas sua ansiedade alcanca uma intensidade alta o suficiente para provocar choro, isolamento e recusa em frequentar as aulas. Dessa maneira, o sofrimento passa a interferir diretametamente em sua vida diaria.
E importante, entretanto, fazer uma diferenciacao entre hipotese diagnostico de diagnostico definitivo. A identificacao de um transtorno exige avalaica psicologica e clinica adequada, considerando a historia da adolescente, a duracao e itensidade dos sintomas, o seu funcionamento em diferentes contextos e a possibilidade de outras explicacoes.
Além dos sintomas ansiosos, o caso apresenta elementos que merecem atenção em relação ao humor. O afastamento de atividades anteriormente prazerosas, como tocar violão, o isolamento social e a labilidade emocional podem indicar a presença de sintomas depressivos. Nesse sentido, não seria adequado afirmar automaticamente que Ana possui um transtorno depressivo apenas com essas informações.
Entretanto, esses sinais justificam uma investigação clínica, principalmente porque o isolamento prolongado e a redução das atividades prazerosas podem intensificar o sofrimento emocional. Assim, uma avaliação adequada deveria investigar tanto os sintomas de ansiedade quanto possíveis alterações de humor, além dos impactos desses sintomas na vida acadêmica, familiar e social da adolescente.
4. Análise Funcional do Comportamento
A Análise do Comportamento permite compreender não apenas a presença da recusa escolar, mas principalmente como esse comportamento é mantido pelas consequências que o seguem. Utilizando a Tríplice Contingência — antecedente, resposta e consequência — é possível representar o comportamento de Ana da seguinte maneira:
- Antecedente (S): aproximação da situação escolar, apresentações, interação com novos colegas ou outras situações percebidas como socialmente ameaçadoras.
- Resposta (R): ansiedade intensa, choro, isolamento, manifestações físicas de ansiedade e recusa em ir à escola.
- Consequência (C): afastamento da situação socialmente ameaçadora e redução imediata da ansiedade.
Por exemplo, imagine que Ana saiba que haverá uma apresentação na escola no dia seguinte. Na noite anterior, ela começa a pensar que os colegas irão julgá-la. A ansiedade aumenta, ela apresenta sintomas físicos e chora. No dia seguinte, recusa-se a ir à escola. Ao permanecer em casa, a situação que provocava ansiedade desaparece naquele momento e ela experimenta um alívio.
Esse alívio imediato é fundamental para compreender a manutenção do comportamento. Nesse caso, ocorre reforçamento negativo. O termo “negativo” não significa que a consequência seja ruim, mas que algo aversivo é retirado. Ao não ir à escola, Ana consegue interromper temporariamente a ansiedade relacionada à situação social. Como o comportamento de esquiva produz alívio, aumenta a probabilidade de que ela volte a evitar situações semelhantes no futuro (Moreira & Medeiros, 2019).
Assim, forma-se um ciclo:
Situação social → ansiedade → esquiva → alívio imediato → aumento da esquiva.
A análise funcional, portanto, permite compreender que a recusa escolar não deve ser interpretada simplesmente como “falta de vontade” ou “desobediência”. Trata-se de um comportamento que possui uma função específica dentro do contexto apresentado.
5. Planejamento de Intervenção e Proposta ABA
A intervenção deve considerar a função do comportamento e buscar desenvolver repertórios mais adaptativos, reduzindo gradualmente a dependência da esquiva.
- Exposição gradual às situações temidas
Uma estratégia possível consiste na construção de uma hierarquia de situações sociais, organizadas de acordo com o nível de dificuldade percebido por Ana. Por exemplo permanecer na escola por um período curto, cumprimentar um colega; conversar brevemente com uma pessoa conhecida; participar de uma atividade em dupla participar de uma atividade em pequeno grupo. O objetivo é que Ana tenha contato progressivo com situações que atualmente evita, desenvolvendo respostas alternativas à esquiva.
- Treino de habilidades sociais
- Reforçamento de comportamentos adaptativos
Além da redução da esquiva, é importante reforçar comportamentos de aproximação. Por exemplo, se Ana conseguir permanecer na escola mesmo apresentando ansiedade, participar de uma atividade ou conversar com um colega, esse comportamento deve receber consequências que favoreçam sua manutenção. O foco passa a ser a valorização do comportamento de enfrentamento, e não apenas a ausência da ansiedade.
Isso é importante porque o objetivo da intervenção não deve ser fazer com que Ana nunca mais sinta ansiedade, mas ajudá-la a desenvolver condições para continuar realizando atividades importantes mesmo diante de emoções desconfortáveis.
- Técnicas de manejo da ativação fisiológica
Também podem ser ensinadas estratégias para que Ana reconheça os sinais corporais associados à ansiedade. Por exemplo, antes de entrar na escola, ela pode identificar alterações nos batimentos cardíacos, tensão muscular e respiração acelerada. A partir disso, técnicas de respiração e relaxamento podem ser utilizadas como estratégias auxiliares para diminuir a ativação fisiológica.
- Articulação com a escola e a família
Como o sofrimento de Ana ocorre em grande parte no contexto escolar, a intervenção não deve ficar restrita ao atendimento individual. A escola pode contribuir oferecendo um ambiente de acolhimento e evitando situações de exposição desnecessária. Inicialmente, por exemplo, pode ser possível adaptar a forma de participação de Ana em determinadas atividades, construindo gradualmente sua autonomia.
A família também possui papel importante, principalmente evitando reforçar involuntariamente a esquiva. Se todas as vezes que Ana apresenta ansiedade a família permite que ela permaneça em casa, o afastamento pode acabar sendo fortalecido pelo alívio produzido. Por outro lado, a família pode oferecer suporte emocional e incentivar gradualmente comportamentos de enfrentamento, em articulação com os profissionais responsáveis pelo acompanhamento.


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Olá, pessoal!
ResponderExcluirNós somos Lara, Léa, Claudia, Eduarda, Thalyta e Taisa, e foi muito interessante conhecer e refletir sobre o caso de Ana a partir da perspectiva apresentada por vocês.
Nós gostamos bastante da forma como vocês abordaram o caso, principalmente ao mostrarem que a recusa escolar não deve ser entendida simplesmente como “falta de vontade”, mas como um comportamento relacionado à tentativa de diminuir a ansiedade.
Um ponto que nos chamou atenção foi pensar que, embora a esquiva traga um alívio imediato para Ana, ela também pode contribuir para a manutenção da ansiedade, pois impede que ela vivencie situações que poderiam ajudá-la a perceber que seus medos nem sempre se concretizam. Por isso, acreditamos que o enfrentamento precisa acontecer de forma gradual e respeitando o tempo da adolescente.
Também consideramos importante olhar para o isolamento social de Ana, já que ela está em uma fase em que os vínculos e o sentimento de pertencimento são muito significativos para o desenvolvimento. Talvez, além de trabalhar a volta à escola, seja necessário ajudá-la a reconstruir sua confiança nas relações e perceber que ela pode ocupar novamente esse espaço sem precisar estar constantemente em estado de alerta.
Parabéns pelo trabalho! Nós achamos muito interessante perceber como uma análise integrada permite compreender Ana para além dos sintomas, considerando também sua história, seu contexto e a forma como ela vivencia esse sofrimento.
Olá, pessoal! Gostei muito da forma como vocês analisaram o caso da Ana, principalmente ao relacionarem a recusa escolar com a ansiedade e mostrarem que esse comportamento não deve ser visto simplesmente como falta de vontade.
ResponderExcluirUm ponto que achei interessante foi a explicação sobre o reforçamento negativo. Quando Ana evita a escola, ela sente um alívio imediato da ansiedade, mas esse alívio pode acabar fortalecendo a esquiva e tornando cada vez mais difícil enfrentar essas situações. Isso mostra como um comportamento que traz conforto naquele momento pode, ao mesmo tempo, contribuir para manter o problema.
Também fiquei pensando na importância da família nesse processo: como oferecer acolhimento para Ana sem acabar reforçando, mesmo sem intenção, o comportamento de esquiva?
Parabéns pelo trabalho! A análise de vocês trouxe uma visão bem completa do caso e abriu espaço para refletirmos sobre diferentes possibilidades de intervenção.